Tadalafila e glaucoma: novo estudo acende alerta para pacientes com sintomas urinários?

Fernando Marsicano 25 de Agosto de 2026

A tadalafila é um dos medicamentos mais prescritos pelos urologistas em todo o mundo. Conhecida inicialmente pelo tratamento da disfunção erétil, ela também conquistou espaço como uma opção eficaz para homens que apresentam sintomas do trato urinário inferior relacionados à hiperplasia prostática benigna. Sua administração diária na dose de 5 mg melhora o fluxo urinário, reduz a frequência das micções, diminui a sensação de esvaziamento incompleto da bexiga e ainda oferece benefícios para pacientes que convivem simultaneamente com disfunção erétil.


Entretanto, um estudo publicado em 2026 no British Journal of Ophthalmology chamou a atenção da comunidade médica ao sugerir uma possível associação entre o uso contínuo de tadalafila e um aumento no risco de glaucoma. A pesquisa não demonstra que o medicamento cause a doença, mas levanta uma hipótese importante que merece ser conhecida tanto pelos médicos quanto pelos pacientes.
Você entenderá o que mostrou o estudo, quais pacientes podem precisar de maior atenção e se existe motivo para interromper o tratamento.


O que é a tadalafila e por que ela é tão utilizada na urologia?


A tadalafila pertence ao grupo dos inibidores da fosfodiesterase tipo 5. Seu mecanismo de ação promove o relaxamento da musculatura lisa e melhora a circulação sanguínea em determinados tecidos. Na prática urológica, esse efeito proporciona benefícios importantes para homens que apresentam sintomas urinários decorrentes do aumento benigno da próstata. Entre eles estão:

  • dificuldade para iniciar a micção
  • jato urinário fraco
  • necessidade de urinar várias vezes durante o dia
  • acordar frequentemente durante a noite para urinar
  • sensação de bexiga cheia mesmo após urinar


Além da melhora dos sintomas urinários, muitos pacientes apresentam melhora simultânea da função erétil, tornando a tadalafila uma opção bastante interessante para homens acima dos 50 anos.


Seu perfil de segurança sempre foi considerado bastante favorável, embora alguns efeitos adversos já sejam conhecidos, como dor de cabeça, congestão nasal, azia e dores musculares. Agora, um possível efeito ocular passou a receber maior atenção.
O que investigou o novo estudo? Pesquisadores da Universidade Nacional de Taiwan realizaram um grande estudo observacional utilizando dados de milhares de pacientes acompanhados durante vários anos.


Foram avaliados homens com sintomas urinários tratados com tadalafila diária e comparados com pacientes semelhantes que não utilizavam medicamentos da mesma classe. Após diversos ajustes estatísticos para reduzir diferenças entre os grupos, os pesquisadores acompanharam a ocorrência de diferentes formas de glaucoma e o início de tratamentos oftalmológicos.


Os resultados mostraram uma associação entre o uso contínuo da tadalafila e um aumento na incidência de alguns desfechos relacionados ao glaucoma, especialmente glaucoma primário de ângulo aberto, hipertensão ocular e início de tratamento específico para glaucoma. O estudo observou um aumento relativo do risco, mas não estabeleceu uma relação direta de causa e efeito.
O que é glaucoma?


Glaucoma é uma doença que provoca lesão progressiva do nervo óptico. Na maioria das vezes, essa lesão está relacionada ao aumento da pressão intraocular, embora algumas pessoas possam desenvolver glaucoma mesmo com pressão considerada normal.


O grande problema é que a doença costuma evoluir lentamente e sem sintomas nas fases iniciais. Quando o paciente percebe alterações visuais importantes, parte da perda do campo visual já pode ser irreversível. Por isso, o diagnóstico precoce é considerado fundamental.
Os exames normalmente incluem:

  • avaliação da pressão ocular
  • análise do nervo óptico
  • campimetria visual
  • tomografia de coerência óptica


Esses exames são simples, indolores e permitem identificar alterações antes mesmo de o paciente perceber qualquer dificuldade visual.


Por que a tadalafila poderia aumentar esse risco?


Ainda não existe uma resposta definitiva. Os autores discutem algumas hipóteses fisiológicas. A principal delas envolve o efeito vasodilatador produzido pelos inibidores da fosfodiesterase tipo 5. Como esses medicamentos modificam o fluxo sanguíneo em diferentes tecidos do organismo, existe a possibilidade de alterarem também a dinâmica vascular ocular ou influenciarem discretamente a pressão intraocular em alguns indivíduos predispostos.


Outra hipótese é que pacientes com sintomas urinários utilizam tadalafila diariamente durante muitos meses ou até anos, diferentemente dos pacientes que fazem uso eventual para disfunção erétil. Essa exposição prolongada poderia explicar por que um possível efeito ocular seria mais facilmente identificado nesse grupo. Os próprios autores destacam que essa hipótese ainda necessita de confirmação em estudos futuros.


O estudo prova que a tadalafila causa glaucoma?


Não.
Esse talvez seja o ponto mais importante para esclarecer aos pacientes. O estudo é observacional. Pesquisas desse tipo conseguem identificar associações entre fatores, mas não conseguem demonstrar causalidade. Existem inúmeras variáveis que podem influenciar o desenvolvimento do glaucoma. Idade avançada, hipertensão arterial, diabetes, fatores genéticos, alterações vasculares e outras doenças podem interferir no resultado.


Mesmo com ajustes estatísticos sofisticados, sempre existe a possibilidade de fatores não mensurados influenciarem os achados. Os próprios pesquisadores afirmam que são necessários estudos prospectivos para confirmar se realmente existe uma relação causal entre a tadalafila e o aumento do risco de glaucoma.


Quem deve ficar mais atento?


A maioria dos pacientes pode continuar seu tratamento normalmente. Entretanto, alguns grupos merecem acompanhamento ainda mais cuidadoso. Entre eles estão pacientes com histórico familiar de glaucoma, pessoas que já apresentam hipertensão ocular, indivíduos acima dos 60 anos, diabéticos, hipertensos e aqueles que já possuem alguma doença ocular previamente diagnosticada.
Nessas situações, pode ser interessante manter avaliações periódicas com o oftalmologista durante o tratamento prolongado. Essa estratégia não significa que o medicamento deva ser suspenso, mas sim que a saúde ocular merece acompanhamento semelhante ao que já ocorre com outras condições clínicas.


O paciente deve interromper a tadalafila?


Na maioria dos casos, não. Interromper um tratamento eficaz apenas com base em um estudo observacional pode trazer mais prejuízos do que benefícios. Muitos homens apresentam melhora significativa da qualidade de vida após iniciar a tadalafila diária.
Os sintomas urinários diminuem, o sono melhora devido à redução das micções noturnas e diversos pacientes recuperam também sua função sexual. Esses benefícios são amplamente documentados em estudos clínicos e continuam sustentando a indicação da medicação para pacientes bem selecionados.


O mais importante é individualizar cada caso.


Caso o paciente apresente dor ocular intensa, perda visual súbita, halos ao redor das luzes ou qualquer alteração importante da visão, deve procurar atendimento oftalmológico imediatamente.


O que muda para o urologista?


Esse novo estudo reforça uma tendência crescente da medicina moderna. Cada vez mais especialistas precisam atuar de forma integrada. A comunicação entre urologista e oftalmologista torna-se especialmente importante quando o paciente apresenta fatores de risco para glaucoma ou necessita de uso contínuo da tadalafila por longos períodos.


Na prática clínica, pode ser interessante registrar antecedentes oftalmológicos durante a consulta urológica e orientar avaliações preventivas quando houver indicação. Essa abordagem amplia a segurança do tratamento sem privar o paciente dos benefícios que a medicação pode oferecer.


O equilíbrio entre benefícios e riscos continua sendo fundamental


Nenhum medicamento é totalmente isento de efeitos adversos. Da mesma forma, nenhum estudo isolado deve modificar completamente a prática clínica sem confirmação por novas pesquisas. O trabalho publicado no British Journal of Ophthalmology representa um importante sinal científico que merece atenção, principalmente porque avaliou um número expressivo de pacientes utilizando tadalafila de forma contínua para sintomas urinários.


Entretanto, os resultados devem ser interpretados com equilíbrio.


Até o momento, não existem evidências suficientes para recomendar a suspensão rotineira da tadalafila em pacientes que apresentam boa resposta clínica. O caminho mais seguro continua sendo o acompanhamento individualizado, com avaliação médica periódica, monitoramento dos fatores de risco e integração entre diferentes especialidades.


A medicina evolui justamente dessa forma. Novas pesquisas geram novas perguntas, que posteriormente são respondidas por estudos ainda mais robustos. Enquanto isso, cabe ao médico interpretar criticamente as evidências disponíveis e oferecer ao paciente uma decisão baseada na melhor ciência, na experiência clínica e nas características individuais de cada pessoa.


Para quem utiliza tadalafila diariamente, a mensagem é tranquilizadora. O tratamento continua sendo uma opção segura e eficaz para a maioria dos pacientes. Ao mesmo tempo, manter acompanhamento oftalmológico quando existem fatores de risco pode representar uma medida preventiva inteligente, reforçando uma medicina personalizada, baseada em evidências e focada na preservação da saúde em longo prazo.


Aviso importante: As informações apresentadas neste artigo são baseadas em estudos científicos e evidências disponíveis até a data de sua publicação. A interpretação e a aplicação desses dados podem variar de acordo com as diretrizes médicas, regulamentações e protocolos clínicos adotados em cada país. As recomendações devem sempre ser avaliadas por um médico, considerando as características individuais de cada paciente e as normas vigentes em sua região.

 

 

Ministério da Saúde
https://www.gov.br/saude/pt-br

Sociedade Brasileira de Urologia
https://portaldaurologia.org.br

Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia
https://www.endocrino.org.br

Anvisa
https://www.gov.br/anvisa/pt-br

 

Telefone: (31) 97400-5134 | Instagram: @dr.fernandomarsicano

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